Aprendendo a Ficar em Mim
Sou doce.
Sou carinho em excesso.
Sou colo antes do pedido.
E, ainda assim,
ninguém fica.
As pessoas passam por mim
como quem recebe abrigo da chuva
e vai embora quando o sol aparece.
Durante muito tempo,
pensei que o erro fosse meu.
Carreguei as partidas
como se fossem falhas minhas.
Isso virou trauma.
Virou peso.
Virou medo de tentar outra vez.
Mas hoje começo a entender:
não é que eu não saiba amar.
É que nem todos sabem ficar.
Meu coração não é frágil,
é generoso demais.
E quem não sustenta profundidade
confunde entrega com excesso.
Não preciso mudar quem sou.
Preciso aprender
a não me abandonar
para que alguém fique.
Se alguém partir,
que leve apenas o que viveu,
não a minha culpa.
Estou aprendendo, devagar,
a permanecer em mim.
E isso, talvez,
seja o começo da cura.
✍️ Neide Rodrigues
Quando Começo a Ficar
Ainda dói,
mas já não sangra.
Aprendo que nem toda ausência
é rejeição,
e que nem toda partida
me define.
Descubro, aos poucos,
que posso amar
sem me perder,
oferecer sem implorar,
cuidar sem me abandonar.
Meu coração desacelera.
Não porque deixou de sentir,
mas porque parou de se culpar.
Já não corro atrás
de quem não sabe ficar.
Agora, espero em mim.
Se alguém chegar,
que encontre espaço,
não vazios.
Se alguém ficar,
que seja escolha,
não medo.
A cura não grita.
Ela sussurra.
E hoje, pela primeira vez em muito tempo,
eu escuto.
✍️ Neide Rodrigues