Entre o Agora e a Eternidade
A vida escorre pelos nossos dedos como água na palma da mão. Por mais que tentemos fechá-la, por maior que seja nossa força para deter o instante, ele segue seu curso silencioso e inevitável. Cada dia que recebemos é também um dia que deixamos para trás, uma soma sempre acompanhada de subtração. E, ainda assim, vivemos como se o tempo fosse infinito, esquecidos de que cada momento é um presente efêmero, único e irrecuperável.
Raramente pensamos na morte. Preferimos deixá-la guardada nas regiões mais profundas do inconsciente, como um quarto escuro que evitamos abrir. Apegamo-nos ao que é terreno, às rotinas, aos afetos, às pequenas alegrias que nos fazem sentir que pertencemos a este mundo. É natural: aqui experimentamos o toque, o olhar, o abraço, a presença dos que amamos.
Mesmo quem crê na vida após a morte, em um paraíso de felicidade plena, encontra dificuldade em se desprender deste mundo tão imperfeito e, ao mesmo tempo, tão nosso. Porque viver, apesar de suas dores, é também sabor, vínculo, descoberta. É aqui que conhecemos o amor, o toque, o riso, o tempo que pulsa.
No fundo, ninguém quer a morte. Não por medo do desconhecido, mas por apego ao conhecido. Por essa coleção de dias que, embora escorregadios, ainda nos pertencem, pelo menos por agora.
Entre o agora e a eternidade, seguimos caminhando. Seguramos apenas o mínimo que a vida permite e aceitamos o muito que se perde. Aprendemos, então, que parte da sabedoria está justamente em deixar que o que escorre cumpra o seu destino, vivendo esse intervalo que é, ao mesmo tempo, breve, infinito e sagrado
Neide Rodrigues