955/2025 - Rotina e Milagre
Rotina e Milagre
por Neide Rodrigues
De manhã o sol me chama pelo nome,
mas finjo que não ouço.
Põe o café no fogo, coração:
a vida não espera.
Penso em Deus entre uma xícara e outra,
às vezes rezo, às vezes reclamo.
A vizinha pendura as roupas,
o cachorro late pro vento.
Tudo tão comum que dói de bonito.
No rádio, uma cantiga antiga,
fala de promessas e de perdão.
Bato o feijão na panela,
ele ferve como pensamento.
A colher é meu cajado.
Sou mulher de fé, mas duvido.
Sou mulher de amor, mas fujo.
E ainda assim, todo dia,
espero um milagre qualquer
um sorriso, um perfume,
um bilhete esquecido na gaveta.
A alma tem dessas manhas:
enche-se de ternura e de vácuo.
Olho o espelho e não me reconheço,
mas a poesia insiste,
ela me cutuca, me provoca,
me lembra que ainda estou viva.
No fim da tarde, o céu se derrama
sobre os telhados como promessa.
E eu, meio santa, meio cansaço,
penduro a roupa lavada
e deixo o coração no varal,
pra ver se o vento o enxuga.
Quando a noite cai,
faço as pazes com o dia:
nem tudo foi perda, nem tudo foi bênção.
Mas se amanhã Deus quiser,
a poesia volta,
e eu volto com ela.
Natal, 28 de outubro de 2025.
Neide Rodrigues
Enviado por Neide Rodrigues em 29/10/2025