Poetisa Neide Rodrigues
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954/2025 - A Música Sem Irmandade
A Música Sem Irmandade
cordel da desarmonia
Neide Rodrigues

1
Eu vou cantar pra vocês
Uma história verdadeira,
De um povo que tem talento
Pra animar qualquer feira,
Mas que por pura inveja
Não ajuda nem na beira.

2
São músicos de viola,
De zabumba ou de clarim,
Cantam bonito sozinhos,
Mas não ajudam a mim,
Se o outro tá sem o pão
Dizem logo: “Pobre, sim!”

3
O cabra chega animado
Pra tocar no mesmo palco,
Mas o outro diz por dentro:
“Que ele quebre o seu talco!”
E se puder atrapalhar
Ainda faz sem dar um calço.

4
Vi sanfoneiro famoso
Negar som pro colega,
O microfone escondia,
E o riso dele era brega,
Pois alegria de um
É a tristeza que ele carrega.

5
Tem cantor que se acha dono
De toda nota e canção,
Mas quando precisa ajuda
Vai implorar pro irmão,
E esquece a arrogância
Que mostrou na ocasião.

6
Já vi zabumbeiro bom
Ser deixado na calçada,
Porque o “chefe da banda”
Só queria sua fachada,
E o som sem a zabumba
Ficou feito sopa aguada.

7
Um pandeiro bem batido
Puxa o povo pra dançar,
Mas se o pandeirista falta
Ninguém vai lhe procurar,
Só lembram que ele existe
Se o cachê for pra pagar.

8
No forró ou no baião
O respeito é melodia,
Mas se falta companheiro
O outro finge alegria,
E toca sozinho no canto
Pra mostrar “que não dependia”.

9
Tem gente que não suporta
Ver o outro aplaudido,
Se o público bate palma
Fica logo enfurecido,
Com cara de quem chupou
Um limão mal curtido.

10
Já vi até guitarrista
Mexer no som do colega,
Baixar o volume dele
Pra ver se a fama nega,
E depois posar de santo
Na foto que o povo pega.

11
Mas quem nasceu pra tocar
Tem que saber partilhar,
O som é mais bonito
Quando as vozes vão somar,
Se não tiver união
A música vai murchar.

12
Tem cantor que só sorri
Quando é ele a brilhar,
Mas se outro ganha destaque
Começa logo a cortar,
E inventa tanta história
Pra o parceiro desmoralizar.

13
Já vi no sertão profundo
Um violeiro se perder,
Porque o amigo famoso
Não quis com ele viver,
Preferiu tocar sozinho
Pra ninguém lhe crescer.

14
E se você tá pensando
Que isso é só no sertão,
Saiba que na capital
Tem músico sem coração,
Que joga contra o colega
Na frente da multidão.

15
Vi baterista esconder
As baquetas do parceiro,
E na hora do ensaio
Dar risada de primeiro,
Feito menino danado
Que apronta no terreiro.

16
No mundo da cantoria
Já vi tanto ego inflado,
Que mais parecia balaio
Cheio de gato enfiado,
Cada um pronto a arranhar
Pra sair mais destacado.

17
Já vi cantor veterano
Não deixar novato entrar,
Dizendo que o “público dele”
Não podia misturar,
Como se música tivesse
Porta pra trancar.

18
E os que dizem “irmãozinho”
Na frente de todo mundo,
Mas por trás vivem furando
E no ciúme se afundo,
São piores que cupim
Roendo tronco profundo.

19
Eu já cantei em evento
Que era pra ser união,
Mas vi gente tapear
E trocar a programação,
Só pra aparecer mais
Na filmagem da estação.

20
Tem uns que fingem ajudar
Mas querem mesmo é mandar,
Se o outro não obedecer
Começam logo a cortar,
E se preciso inventam
Motivo pra derrubar.

21
Na roda de violão
Já vi coisa desonesta,
Um afinava pro outro
Só pra desafinar na festa,
E depois culpar o colega
Dizendo que não presta.

22
Cantor que diz “companheiro”
E depois toma seu show,
Tá pior que o vento forte
Que derruba o que plantou,
Esquece que no futuro
Colhe só o que semeou.

23
No sertão ou na cidade
Músico bom é aquele
Que chama o outro pra junto
E canta o que ele pede,
Pois talento de verdade
Nunca teme quem sucede.

24
Já vi no pé de serra
Sanfonista mascarado,
Que se acha dono do som
E do povo apaixonado,
Mas quando o fole rasga
Fica triste e isolado.

25
Tem gente que só respeita
Quem tá com fama na praça,
Mas esquece que a sanfona
Sem zabumba perde a graça,
E que a música é mais forte
Quando o conjunto abraça.

26
Um bom cantor de repente
Pode perder a voz, sim,
E quem ele desprezou
Pode ser quem lhe salve, enfim
Por isso trate o colega
Como se fosse o seu rim.

27
Já vi baixista sumir
Só pra banda não tocar,
E depois se oferecer
Pra “salvar” no mesmo lugar,
Mas na verdade queria
Era se aproveitar.

28
No pagode e no choro
Tem também falsidade,
Gente que diz ser parceiro
Mas é pura vaidade,
E se o outro se destaca
Vem logo com crueldade.

29
Uma vez em Mossoró
Vi coisa de envergonhar,
Cantor tirou a tomada
Pra outro não se apresentar,
E ainda disse sorrindo:
“Foi só pra economizar!”

30
Tem quem fale que é artista
Mas não tem alma nem luz,
Esquece que o dom maior
É aquele que vem de Jesus,
E que quem não tem amor
Não acompanha a sua cruz.

31
Já vi gente boa chorar
Por causa de um companheiro
Que prometeu dividir
E depois negou dinheiro,
Deixando o pobre a pé
Voltando triste ao terreiro.

32
Cantoria é como roça,
Se planta junto é fartura,
Mas se um come sozinho
A colheita não dura,
E o campo vira deserto
De tristeza e amargura.

33
Na festa de Padroeiro
Tem sempre um “rei do pedaço”,
Que só deixa subir no palco
Quem lhe paga algum abraço,
E quem não agrada ele
Vai tocar lá no terraço.

34
Já vi cantor se esconder
Pra não emprestar corda,
E depois na procissão
Posar de santo na borda,
Mas Deus sabe o que é falso
E o que é gente que acorda.

35
A música é um presente
Que Deus mandou repartir,
Não foi pra ser guardada
Nem pra servir de atrair,
Quem usa só pro seu nome
Vai cedo se destruir.

36
Já vi clarineto sumir
Na hora da apresentação,
E o dono, que era famoso,
Fez cara de negação,
Mas foi ele que escondeu
Pra roubar a atenção.

37
Na feira de Caruaru
Vi trombone sem tocar,
Pois o dono se zangou
Com quem ia acompanhar,
E preferiu ver o show
Parado sem funcionar.

38
Tem uns que gostam de ver
O outro desafinar,
Pra depois ir cochichando
E tentar desmoralizar,
Mas Deus escuta o que é limpo
E sabe o que vai julgar.

39
Já vi cantor veterano
Negar palco a aprendiz,
Dizendo que o novato
Podia estragar a matriz,
Mas esqueceu que ele mesmo
Foi novato e foi feliz.

40
Se o músico não divide
O que sabe e o que tem,
Acaba perdendo tudo
E não aprende com ninguém,
Pois quem fecha o seu ouvido
Fecha a bênção também.

41
Já vi maestro famoso
Esconder partitura,
Só pra banda errar o tom
E cair na desventura,
Mas o público percebe
Quem é falso na postura.

42
Cantor que pisa no outro
Tá pisando na canção,
E o som que sai de um ego
Não tem vida nem paixão,
É feito rio barrento
Que só causa inundação.

43
Já vi na beira da praia
Músico negar cadeira
Pra colega se sentar
E afinar sua madeira,
Só pra deixar o outro
De pé feito bananeira.

44
No sertão vi um cantor
Que só tocava se o show
Fosse todo em seu nome,
Sem dividir o apogeu,
E dizia que o sucesso
Era tudo que era seu.

45
O músico de verdade
Não teme concorrência,
Porque sabe que o talento
Vem de Deus com paciência,
E quem divide o palco
Só aumenta a influência.

46
Já vi trio se quebrar
Por causa de uma mulher,
E no meio da disputa
A banda perdeu o que é,
Pois amor de vaidade
Não faz música de fé.

47
Tem músico que não presta
Se não for pra mandar,
E se vê outro crescendo
Começa logo a cortar,
Esquece que cada estrela
Tem seu tempo pra brilhar.

48
Já vi cantor tirar foto
Abraçado no irmão,
Mas por trás fazia intriga
E armava confusão,
Só pra tomar o lugar
No próximo bailão.

49
O pior não é perder
O amigo ou o show,
É perder a confiança
Que um dia já plantou,
E ficar sozinho e triste
Com o que ele mesmo armou.

50
Tem músico que é cigarra
Cantando só pra si,
Enquanto a formiga luta
Pra que o grupo não caia ali,
Mas a vida cobra cedo
Do que canta sem dividir.

51
No sertão vi maestro
Fechar o livro no meio,
Pra ninguém aprender mais
E seguir o seu esteio,
Mas o aluno inteligente
Vai além do seu rodeio.

52
Já vi cantor se negar
A emprestar o violão,
Mesmo vendo o companheiro
Sem ter outro na mão,
Mas depois pedir ajuda
Quando passa precisão.

53
Tem banda que se desmancha
Por causa de um só sujeito,
Que não aceita conselho
Nem respeita outro direito,
E no fim sobra tristeza
E um silêncio sem proveito.

54
Cantor que vive sozinho
Não constrói comunidade,
Pois música é partilha,
É amor, é irmandade,
E sem isso o som se perde
No vazio da vaidade.

55
Já vi cantor inventar
Mentira sobre parceiro,
Só pra tomar o seu lugar
E se mostrar por inteiro,
Mas quem sobe por maldade
Cai de um jeito ligeiro.

56
Tem músico que só lembra
Do outro quando precisa,
Mas no dia da fartura
Vira as costas e se avisa,
E esquece que amanhã
A vida é quem fiscaliza.

57
Na cantoria aprendi
Que quem ajuda é ajudado,
E que o som mais bonito
É do povo misturado,
Cada um dando seu tom
Pro conjunto abençoado.

58
A lição que eu deixo aqui
É pra todo violeiro:
Divida palco e respeito,
Ajude o seu companheiro,
Pois música sem amizade
Não passa de som grosseiro.

59
Seja sanfona ou pandeiro,
Violino ou rabecão,
Todo som fica mais forte
Quando junto é que estão,
Pois a força da música
É a força da união.

60
E assim termino o cordel
Falando a pura verdade:
Quem divide multiplica
O valor da amizade,
E quem ajuda o irmão
Canta sempre de vontade.

Natal, 08 de agosto de 2025.
Neide Rodrigues
Enviado por Neide Rodrigues em 28/10/2025
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