885/2025 - André de Albuquerque Maranhão: Mártir da Liberdade e da Justiça
André de Albuquerque Maranhão: Mártir da Liberdade e da Justiça
Neide Rodrigues
Na vila serena de Canguaretama, terra abençoada por Nossa Senhora da Conceição, nasceu um homem que, movido pela fé e pela coragem, cravou seu nome na história do Rio Grande do Norte: André de Albuquerque Maranhão.
Nascido no tradicional Engenho Cunhaú, que à época pertencia à freguesia de Goianinha e atualmente faz parte do município de Canguaretama, na região Agreste do Rio Grande do Norte, no ano de 1773, segundo declaração prestada por ele em 1801, era filho de André de Albuquerque Maranhão e D. Antônia Josefa do Espírito Santo Ribeiro. Tinha raízes firmes na tradição potiguar: neto paterno de Gaspar de Albuquerque Maranhão e Luzia Vieira de Sá, e neto materno de João Ribeiro Leitão e Francisca da Nóbrega. Seus irmãos, também ligados por matrimônio a primos e proprietários de engenhos, perpetuavam alianças nas terras férteis do Nordeste colonial.
Mas foi André quem cavalgou além dos limites da tradição. Coronel da Cavalaria Miliciana da Repartição do Sul, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo e 6º Senhor do Engenho Cunhaú, decidiu romper com os grilhões do absolutismo. Em 1817, guiado por ideais republicanos e inspirado pela chama da justiça, tornou-se o principal líder da Revolução Pernambucana no Rio Grande do Norte — movimento que clamava por independência, liberdade e um novo pacto social.
Por 28 dias, presidiu uma junta revolucionária que ousou sonhar com um novo tempo. Porém, a repressão chegou com fúria. Em um ataque armado por contra-revolucionários, André foi ferido. Preso, foi levado ao Forte dos Reis Magos, em Natal — local que, ironicamente, já abrigava seus irmãos Francisco e Luiz, presos por quatro anos por envolvimento na mesma causa.
Naquela noite sombria, André foi deixado numa cela escura, ferido e solitário, no silêncio frio das pedras coloniais. Ali, agonizou até a morte, sem direito a socorro nem clemência. O forte, marco da fundação da cidade, transformou-se em altar de martírio e resistência.
André de Albuquerque Maranhão não foi apenas o nome de uma praça. Foi voz firme contra a tirania, coração pulsante de liberdade, homem de fé que ousou sonhar com justiça.
A Igreja, como guardiã da memória e da verdade, contempla em figuras como André, sinais do Evangelho vivido na prática: o dom da vida oferecida pelo bem comum. Que sua lembrança ecoe como exemplo aos cristãos e cidadãs da terra potiguar, sobretudo à juventude que, entre dúvidas e anseios, procura por referências verdadeiras.
Curiosamente — ou talvez por desígnio divino — o mesmo Engenho Cunhaú, onde André veio ao mundo, já havia sido solo de martírio e fé. Em 1645, ali se derramou o sangue dos primeiros santos brasileiros, vítimas da intolerância religiosa. Séculos depois, naquele mesmo chão, nasceria André, cuja vida também seria ceifada por se manter fiel a um ideal superior. Se os mártires de Cunhaú tombaram pela fé em Cristo, André tombou pela liberdade de um povo. Ambos, em tempos distintos, selaram com o próprio sangue a coragem de resistir à opressão.
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos amigos." (João 15:13)
Que o Engenho Cunhaú permaneça, para o povo potiguar, como símbolo eterno de fé, justiça e bravura — sementes regadas por mártires que não temeram doar a vida por um bem maior.
Natal. 22 de maio de 2025.
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Neide Rodrigues
Enviado por Neide Rodrigues em 28/08/2025