*Estações da Alma
À Espera de Abril
Nas névoas de um outono esquecido,
Repousa a flor que não chegou a abrir.
O tempo, em véus de linho envelhecido,
Sussurra o que não soube exprimir.
No espelho antigo da memória calma,
Surge um rosto feito só de manhã.
Mas veio a noite, e, roubando-lhe a alma,
Fez do sonho um silêncio sem amanhã.
Oh tempo, cavaleiro tão altivo,
Que pisas rosas sem ouvir seu pranto,
Teus passos são de pedra, e eu vivo
De perfumes que guardei no manto.
E espero; como quem já não espera,
Presa entre o que foi e o que virá.
Talvez a vida, em sua primavera,
Me devolva o que em mim ficou lá.
Neide Rodrigues
Natal, Em algum abril que não chegou.