829/2025 - A Última Folha de Outono
Última folha de outono.
Por Neide Rodrigues.
Era uma tarde silenciosa de outono. Clara folheava, com delicadeza, o antigo álbum de fotos sobre o colo. Cada imagem era uma cápsula de tempo: retratos de viagens, festas, abraços e sorrisos que o tempo não apagava, apenas envolvia em névoa de nostalgia.
Seus dedos pararam, trêmulos, numa fotografia em particular. Ela estava ali, mais jovem, com os olhos brilhando e um sorriso que nem ela sabia mais repetir. Ao seu lado, ele. Miguel. O homem que marcou sua história com intensidade, mesmo sem ter ficado até o fim.
Encostou a testa na borda do álbum, fechou os olhos e permitiu-se voltar: aos cafés demorados nas tardes chuvosas, aos passeios sem rumo pela cidade antiga, aos segredos trocados como se fossem eternos. Viu-se amando com força, vivendo cada segundo com esperança, mesmo sentindo, no fundo, que ele nunca esteve inteiro ali.
Não foi um amor correspondido por completo. Mas foi amor. E isso bastava para ela.
— Tentei! — murmurou, com um sorriso que oscilava entre a angústia e a ternura. — Não venci… mas tentei.
Miguel se foi há muito tempo. Não houve briga, nem cena. Apenas um distanciamento invisível, como quando uma canção vai diminuindo de volume até desaparecer. Ele não permaneceu, mas deixou memórias intensas, dolorosas e verdadeiras.
Clara enxugou discretamente uma lágrima que escorreu. Não era tristeza. Era saudade do que poderia ter sido… e gratidão pelo que foi.
Fechou o álbum com carinho e olhou pela janela. As folhas caíam lentas, como num filme antigo. Suspirou fundo.
Se eu viver outra história, que venha. Ainda acredito no amor… mesmo que ele só exista, às vezes, no lugar onde moram meus sonhos.
E naquele instante, Clara soube: certas histórias não precisam de final feliz para serem eternas. Basta que tenham sido reais, ao menos para quem as viveu com o coração inteiro.
Natal, 8 de dezembro de 2022.
Releitura: 26 de julho de 2025
Neide Rodrigues
Enviado por Neide Rodrigues em 29/07/2025
Alterado em 29/07/2025