*Estações da Alma
Silêncio Hereditário
Neide Rodrigues
Na infância, aprendi a engolir o choro.
Não por falta de dor, mas por excesso de ensinamento.
Meus pais, sem saber, sem maldade, repetiram a lição herdada:
“Mágoa se guarda”, “sentimento é fraqueza exposta”.
Como se o mundo não precisasse saber o que se passa aqui dentro.
Como se chorar diante do outro fosse desnudar a alma em praça pública.
Cresci com esse silêncio apertado no peito, mas... desobedeci.
Falei.
Falei verdades que feriram, não para machucar, mas para me libertar.
Perdi “amizades” por dizer o que ninguém queria ouvir.
Ganhei distâncias, afastamentos, silêncios que não eram meus.
Outras vezes, fui mais fundo: disse “EU TE AMO” a quem não me ouviu.
Ou ouviu e fez pouco caso.
Talvez não merecessem.
Talvez eu tivesse errado o alvo, mas não o sentimento.
Então calei.
Não por covardia, mas por cansaço.
E comecei a escrever.
Sem endereço, sem aviso.
Registro pensamentos soltos, pedaços de amor,
ruínas de esperanças, restos de amizades que achei eternas.
Fui silenciada, mas minhas palavras falaram.
Senti-me perdida, mas encontrei meu caminho.
Perdi, mas renasci nas minhas próprias linhas.
Transformo,
como quem costura feridas com palavras.
Traduzo,
para dar voz ao que o silêncio guarda.
Recrio,
para que o coração se liberte.
Revelo,
para tornar visível o invisível.
Escrevo,
para que minha alma respire.
Não permito que sentimentos se percam.
Sou lírica, sim.
Mas não estou sozinha neste naufrágio calado.
Há outros como eu: seres que sentem demais,
falam de menos e se escondem na poesia.
Fechados num mundo que não exige senhas... apenas sensibilidade.
E assim sigo escrevendo:
transformando silêncio em voz, experiências em aprendizado,
dor em poesia, e palavras em liberdade.
A escrita tornou-se meu refúgio, meu lugar de verdade,
onde posso transformar emoções em poesia.
Na poesia, encontrei a chave do cárcere da alma:
a liberdade de ser inteira.
Natal, 28 de julho de 2025
Imagem: pôr do Sol do Rio Potengi. Acervo pessoal.