A Profecia da Cigana: Entre memórias e encantamentos
Uma cigana cruzou o meu caminho.
Apareceu sem pressa, como quem já sabia para onde ia. Aproximou-se com um leve sorriso, pediu para ler minha mão e, com olhos misteriosos, foi revelando minha sorte.
“Tiveste grandes amores”, disse com voz embalada pelo vento, “mas o maior deles está por vir.”
Sorriu mais uma vez e partiu, como se desaparecesse nas brumas do destino.
Quem acredita em ciganas?
Lembro que, quando criança, morria de medo deles. Sempre que ia à escola, passava por um acampamento que costumava se instalar no cruzeiro, no alto da estação. Aquela mistura de liberdade e mistério me deixava inquieta.
Mas tudo mudou quando começaram a frequentar o sítio do meu pai, no bairro Areia Branca. Foi lá que o medo cedeu espaço à curiosidade e, confesso, na adolescência até paquerei um deles.
Homens e mulheres belíssimos, adornados de ouro e cheios de altivez, caminhavam como se dançassem com o mundo. Havia um encanto em cada gesto, em cada olhar.
O barô dos ciganos — sim, eu lembro — era Garcia. Tinha uma presença marcante e olhos de quem já viu muitas histórias. Era impossível passar por eles sem ser tocada por alguma faísca de encantamento.
Hoje, depois daquela profecia, sigo com o coração tranquilo e curioso.
Quem sabe o príncipe continua encantado?
Esperar por ele, com fé e poesia, já é uma forma bonita de amor.
Em poesia:
A Profecia da Cigana
Apareceu sem pressa no meu caminho,
Com olhos de névoa e passos de luar,
Tomou minha mão com suave carinho,
E começou, sem pressa, a me revelar:
“Tiveste amores que o tempo guardou,
Mas o maior, minha filha, virá depois.”
E com um sorriso que tudo acalmou,
Sumiu entre sombras, sem dizer adeus.
Quem crê nas ciganas de saias ao vento?
Eu, criança, sentia um medo profundo,
Quando, lá do alto, em quieto pensamento,
Via os acampamentos à margem do mundo.
Mas tudo mudou quando, um certo verão,
Foram ao sítio do meu pai, em festa.
Larguei o receio, cedi à emoção...
E paquerei um cigano, sem pressa!
Eles, tão belos, em ouro e fulgor
Mulheres, homens, com brilho e feição.
Caminhavam leves, com ar encantador,
Como se dançassem junto ao chão.
O chefe, Garcia, homem de presença,
Tinha olhar sábio, de quem sabe ouvir.
Com ele, senti que a vida é crença,
E que o destino sabe aonde ir.
Após a leitura que ela me ofereceu,
Vivo com calma, sem desilusão.
Talvez o príncipe ainda não apareceu,
Mas guardo a esperança no coração.
E se o amor maior ainda há de chegar,
Que venha em seu tempo, sereno e real.
Enquanto isso, escolho acreditar...
Com poesia e fé no bem que é imortal.
Neide Rodrigues
Natal, 05 de setembro de 2024